{"id":3949,"date":"2022-06-24T21:33:47","date_gmt":"2022-06-25T00:33:47","guid":{"rendered":"https:\/\/novasdodia.com.br\/?p=3949"},"modified":"2022-06-24T21:33:47","modified_gmt":"2022-06-25T00:33:47","slug":"parecem-fantasmas-os-bizarros-raios-x-que-tocavam-musica-na-urss-poa-show","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novasdodia.com.br\/index.php\/2022\/06\/24\/parecem-fantasmas-os-bizarros-raios-x-que-tocavam-musica-na-urss-poa-show\/","title":{"rendered":"Parecem fantasmas: os bizarros raios-X que tocavam m\u00fasica na URSS &#8211; POA SHOW"},"content":{"rendered":"<p>Imagine viver sob a sombra de um regime autorit\u00e1rio que pro\u00edbe todo e qualquer tipo de  estrangeira. Imagine ent\u00e3o passar por isso durante o auge do jazz e na eclos\u00e3o do rock and roll, fen\u00f4meno que mudaria os costumes do mundo na segunda metade do s\u00e9culo 20.<\/p>\n<p>O resultado dessa conta, que n\u00e3o fecha, gerou um dos casos mais fascinantes e singulares da hist\u00f3ria da m\u00eddia f\u00edsica: a era em que discos pop foram produzidos e consumidos a partir de placas de raio-X hospitalares. Aconteceu na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<\/p>\n<h4>Relacionadas<\/h4>\n<p>Com a censura e o isolamento em pleno vigor na Guerra Fria, essa foi a maneira encontrada por jovens descolados dos anos 1950 e 1960 de consumir o que o estado sovi\u00e9tico via como a mais nova, perniciosa e antirrevolucion\u00e1ria cultura: Elvis, Beatles, Rolling Stones, Ella Fitzgerald, Chubby Checker.<\/p>\n<p>       <img>  <i><\/i>   Imagem: Paul Heartfield   <\/p>\n<h2>Como os discos eram feitos<\/h2>\n<p>Importada de laborat\u00f3rios de r\u00e1dios h\u00fangaras da Segunda Guerra, no auge de escassez de mat\u00e9ria-prima, a ideia consistia em copiar o conte\u00fado de discos em uma superf\u00edcie alternativa, criando uma chapa de celuloide reproduz\u00edvel.<\/p>\n<p>O equipamento usado nos primeiros cortes, um torno port\u00e1til alem\u00e3o da marca Telefunken, havia sido projetado como gravador de voz para rep\u00f3rteres de guerra. Mas o jeitinho sovi\u00e9tico conferiu a ele versatilidade.<\/p>\n<p>       <img>  <i><\/i>  Aparelho caseiro de cortar discos usado na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o <\/p>\n<p>A primeira pe\u00e7a teria chegado a Leningrado (hoje S\u00e3o Petersburgo) em uma loja de souvenirs, que durante o dia oferecia aos clientes o servi\u00e7o de grava\u00e7\u00e3o suas vozes. Na surdina, o produto de maior sa\u00edda era outro: o \u00f3pio sonoro imperialista.<\/p>\n<p>O burburinho cresceu e rapidamente o torno importado ganhou c\u00f3pias. &#8216;Bootleggers&#8217; recortavam os c\u00edrculos das placas com uma tesoura e muitas vezes furavam o buraco central com um cigarro. Milhares de discos clandestinos foram vendidos dessa forma no pa\u00eds.<\/p>\n<h2>E como eram esses discos?<\/h2>\n<p>Devido a sua t\u00eanue gramatura, eles s\u00f3 armazenavam m\u00fasicas em um dos lados, de dois ou tr\u00eas minutos de grava\u00e7\u00e3o. A superf\u00edcie e borda eram irregulares, feitos principalmente no formato de 7 polegadas, para serem reproduzidos a 78 rota\u00e7\u00f5es por minuto nos toca-discos de ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Informa\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica? Alguns rabiscos a caneta. E a qualidade de som passava longe da alta-fidelidade de lan\u00e7amentos oficiais. Mas, para quem nunca havia escutado &#8220;Rock Around the Clock&#8221;, &#8220;Blue Suede Shoes&#8221; e &#8220;Tutti Frutti&#8221;, &mdash;s\u00f3 m\u00fasicas folcl\u00f3ricas e comunistas eram permitidas nos meios de comunica\u00e7\u00e3o&mdash;, acessar aquele conjunto de sons proibidos era m\u00e1gico.<\/p>\n<h2>Confira abaixo<\/h2>\n<h2><\/h2>\n<h2>   <\/h2>\n<p>H\u00e1 relatos curiosos dessa \u00e9poca. Adolescentes pediam com frequ\u00eancia m\u00fasicas indispon\u00edveis a traficantes, que dependiam da boa vontade de fornecedores estrangeiros. A solu\u00e7\u00e3o: vendedores copiavam qualquer outra no lugar, j\u00e1 que ningu\u00e9m conseguiria diferenciar m\u00fasicas que nunca haviam sido ouvidas.<\/p>\n<p>Placas eram compradas e vendidas como drogas em esquinas, becos escuros e parques, longe da fiscaliza\u00e7\u00e3o stalinista. S\u00f3 em 1958 o governo descobriria o esquema. A distribui\u00e7\u00e3o foi banida e, com a chegada dos gravadores reel-to-reel nos anos 1960, que deram in\u00edcio \u00e0 cultura dos K7, os discos de celuloide ca\u00edram em desuso e viraram pe\u00e7as de colecionistas.<\/p>\n<h2>Mas por que a mat\u00e9ria-prima era uma placa de raio-X? Duas raz\u00f5es explicam o suporte<\/h2>\n<p>A import\u00e2ncia desse epis\u00f3dio, conhecido internacionalmente como &#8220;bone music&#8221; (&#8220;a m\u00fasica do osso&#8221;), \u00e9 tremenda. J\u00e1 foi radiografada em exposi\u00e7\u00e3o, document\u00e1rio e no livro &#8220;X-Ray Audio: The Strange Story of Soviet Music on the Bone&#8221;, escrito por Stephen Coates, l\u00edder do grupo ingl\u00eas The Real Tuesday Weld.<\/p>\n<\/p>\n<h2>Legado<\/h2>\n<p>Considerados o pontap\u00e9 inicial da pirataria na m\u00fasica, o discos de raio-X deram ainda visibilidade aos Stilyagi, membros de um movimento contracultural russo inspirado nos beatniks que virou s\u00edmbolo de liberdade individual e resist\u00eancia ao regime, que perduraria por mais tr\u00eas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Com seu aspecto fantasmag\u00f3rico, est\u00e9tica similar \u00e0 de bandas de death metal e punk underground que nem sequer existiam, eles tamb\u00e9m s\u00e3o precursores dos , que ganhariam tra\u00e7\u00e3o na pr\u00f3pria Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica anos depois, e uma inspira\u00e7\u00e3o para os picture discs, os vinis com imagens na superf\u00edcie que hoje fazem barulho entre colecionadores.<\/p>\n<p>Ainda \u00e9 poss\u00edvel encontrar esses objetos de arqueologia musical sendo vendidas em antiqu\u00e1rios e mercados de pulgas na R\u00fassia e em ex-rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas. E eles n\u00e3o s\u00e3o baratos. Em sites como o eBay, &#8220;morrem&#8221; em m\u00e9dia por R$ 200 reais cada um.<\/p>\n<p>       <img>  <i><\/i>   Imagem: Reprodu\u00e7\u00e3o   <\/p>\n<h2>Voc\u00ea j\u00e1 viu ou pegou algum desses por a\u00ed em viagens? Quer falar sobre este ou outro assunto? Ent\u00e3o escreva nos coment\u00e1rios ou mande uma mensagem para mim no  ou . Quer ler mais textos? .<\/h2>\n<p>E at\u00e9 a pr\u00f3xima datilografada!<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"\/\/poashow.com.br\/2022\/06\/24\/parecem-fantasmas-os-bizarros-raios-x-que-tocavam-musica-na-urss\" title=\"poashow.com.br\/2022\/06\/24\/parecem-fantasmas-os-bizarros-raios-x-que-tocavam-musica-na-urss\" target=\"_blank\" rel=\"bookmark noopener\"><cite>poashow.com.br\/2022\/06\/24\/parecem-fantasmas-os-bizarros-raios-x-que-tocavam-musica-na-urss<\/cite><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagine viver sob a sombra de um regime autorit\u00e1rio que pro\u00edbe todo e qualquer tipo de estrangeira. Imagine ent\u00e3o passar por isso durante o auge do jazz e na eclos\u00e3o do rock and roll, fen\u00f4meno que mudaria os costumes do mundo na segunda metade do s\u00e9culo 20. 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