{"id":45911,"date":"2026-02-08T12:06:35","date_gmt":"2026-02-08T15:06:35","guid":{"rendered":"https:\/\/novasdodia.com.br\/index.php\/2026\/02\/08\/samba-enredo-e-um-grande-enunciado-politico-diz-sociologo\/"},"modified":"2026-02-08T12:06:35","modified_gmt":"2026-02-08T15:06:35","slug":"samba-enredo-e-um-grande-enunciado-politico-diz-sociologo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novasdodia.com.br\/index.php\/2026\/02\/08\/samba-enredo-e-um-grande-enunciado-politico-diz-sociologo\/","title":{"rendered":"Samba-enredo \u00e9 um grande enunciado pol\u00edtico, diz soci\u00f3logo"},"content":{"rendered":"<p> Por MRNews<br \/>\n<\/p>\n<div wp_automatic_readability=\"180.73030634573\">\n<p>O avan\u00e7o da democracia no Brasil ao longo do S\u00e9culo 20 foi sinuoso e n\u00e3o se deu como a evolu\u00e7\u00e3o firme de um desfile bem ensaiado de carnaval.<\/p>\n<p>Entre essas idas e vindas, carnavalescos, compositores e membros das escolas de samba foram vigiados, censurados e at\u00e9 presos pelas for\u00e7as de repress\u00e3o que atuaram at\u00e9 depois da volta dos civis ao poder. Contra as pessoas pretas que faziam e fazem o carnaval do Rio, ainda\u00a0pesou o racismo.<\/p>\n<p>A luta nessa trincheira pol\u00edtica \u00e9 o tema de pesquisa do\u00a0soci\u00f3logo Rodrigo Antonio Reduzino, que\u00a0defende neste ano a tese de doutorado <em>Enredos da Liberdade: o grito das Escolas de Samba pela Democracia<\/em>, no Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/mrnews.com.br\/index.php\/2026\/02\/08\/enredo-da-viradouro-mestre-cica-desfilara-no-comando-da-bateria\/\">Enredo da Viradouro, Mestre Ci\u00e7a desfilar\u00e1 no comando da bateria<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/mrnews.com.br\/index.php\/2026\/02\/08\/tv-brasil-exibe-paysandu-x-remo-neste-domingo-as-16h50\/\">TV Brasil exibe Paysandu x Remo neste domingo, \u00e0s 16h50<\/a><\/strong><\/p>\n<p>O trabalho acad\u00eamico trata dos enredos das escolas de samba do Grupo Especial do\u00a0Rio de Janeiro ao longo da d\u00e9cada de 1980, quando tem fim a ditadura militar (1964-1985).<\/p>\n<p>A an\u00e1lise dos sambas atravessa a campanha pelas Diretas J\u00e1\u00a0(1984) e vai at\u00e9 a\u00a0elei\u00e7\u00e3o de Fernando Collor \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica (1989). O trabalho do soci\u00f3logo serviu de base para o document\u00e1rio <em>Enredos da Liberdade,<\/em>\u00a0dispon\u00edvel em cinco epis\u00f3dios em ambiente streaming (<em>Globoplay<\/em>).<\/p>\n<p>Al\u00e9m de pesquisador acad\u00eamico, Reduzino trabalha na Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o do Estado do Rio de Janeiro e no Departamento Cultural da Mangueira. A seguir trechos da entrevista que ele concedeu \u00e0\u00a0<strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>\u00a0para o programa <em>Roda de Samba<\/em>, feito em parceria com a\u00a0<strong>R\u00e1dio Nacional<\/strong>.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/mrnews.com.br\/index.php\/2026\/02\/07\/classe-dominante-brasileira-entende-o-estado-como-dela-diz-haddad\/\">Classe dominante brasileira entende o Estado como dela, diz Haddad<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/mrnews.com.br\/index.php\/2026\/02\/07\/justica-decreta-prisao-de-suspeito-de-matar-professora-em-porto-velho\/\">Justi\u00e7a decreta pris\u00e3o de suspeito de matar professora em Porto Velho<\/a><\/strong><\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<h6 class=\"meta\">Acad\u00eamicos do Grande Rio desfila no terceiro dia de carnaval do grupo Especial na Marqu\u00eas de Sapuca\u00ed, na regi\u00e3o central do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil<!--END copyright=416506--><\/h6>\n<\/div>\n<h2>Confira a entrevista<\/h2>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: Quando se fala em resist\u00eancia na m\u00fasica popular \u00e0 ditadura militar, imediatamente se pensa em nomes da chamada MPB. Pouco se fala do papel das escolas de samba nos anos de chumbo. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p><strong>Rodrigo Reduzino:<\/strong> A gente precisa fazer um exerc\u00edcio de reflex\u00e3o para poder entender\u00a0porque, em determinados assuntos dentro do processo social, sempre temos setores, segmentos ou mesmo pessoas que se acham guardi\u00f5es de determinado tema.<\/p>\n<blockquote wp_automatic_readability=\"11\">\n<p>Vivemos em uma sociedade historicamente estruturada pelo racismo, e\u00a0uma das dimens\u00f5es dele \u00e9 o apagamento da palavra, da intelectualidade e\u00a0da humanidade. [Mas] a escola de samba, por meio do samba-enredo, tamb\u00e9m pode falar e provocar. O samba-enredo \u00e9 um grande enunciado pol\u00edtico.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Quando observamos enredos dos anos 1980\u00a0fazendo cr\u00edticas \u00e0 ditadura, n\u00e3o podemos olhar para isso como fosse um desfile de uma hora ou de uma hora e meia. Na verdade, o processo de cria\u00e7\u00e3o levou seis meses, talvez um ano, dentro da comunidade. Ent\u00e3o, quando vemos uma escola de samba fazendo cr\u00edtica \u00e0 tortura ou gritando \u2018liberdade\u2019 em pleno regime ditatorial, h\u00e1 um processo pol\u00edtico muito mais alargado.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:\u00a0<\/strong>O que a repress\u00e3o contra as escolas de samba adiciona na viol\u00eancia do Estado \u00e0s camadas populares?<\/p>\n<p><strong>Rodrigo Reduzino:<\/strong>\u00a0Eu imagino que possa haver por parte do aparelho repressor do Estado um res\u00edduo a mais de viol\u00eancia contra as camadas populares, contra a popula\u00e7\u00e3o negra, contra a popula\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica e, tamb\u00e9m, contra quem \u00e9 envolvido com o samba.<\/p>\n<p>Samba \u00e9 uma express\u00e3o de cultura negra na sociedade brasileira, que historicamente reproduz e mant\u00e9m sua estrutura racista. N\u00e3o podemos esquecer os processos hist\u00f3ricos. N\u00e3o podemos esquecer o C\u00f3digo de Vadiagem [Art. 59 do Decreto-Lei 3.688\/1941, a Lei das Contraven\u00e7\u00f5es Penais].<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil: <\/strong>A pol\u00edcia usava esse c\u00f3digo para\u00a0associar\u00a0uma pessoa negra com instrumento musical e vadiagem?<\/p>\n<p><strong>Rodrigo Reduzino:<\/strong> Se voc\u00ea n\u00e3o estivesse com sua carteira de trabalho, poderia ser autuado e levado para delegacia.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> Uma associa\u00e7\u00e3o com a criminalidade, ou pelo menos com a contraven\u00e7\u00e3o, \u00e9 sempre feita entre escolas de samba e banqueiros do bicho.<\/p>\n<p><strong>Rodrigo Reduzino:<\/strong> A gente come\u00e7a a ter, justamente na ditadura militar, os chamados mecenas do jogo de bicho dentro das escolas de samba. Isso n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa. O jogo do bicho \u00e9 do final do S\u00e9culo 19, mas a ideia desse empresariado mecenas, com visibilidade, \u00e9 do per\u00edodo da ditadura. E \u00e9 o mesmo bicheiro que toma champanhe dentro dos gabinetes com generais ou dentro do Pal\u00e1cio da Guanabara [sede do governo do Rio de Janeiro].<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong>\u00a0No document\u00e1rio <em>Enredos da Liberdade<\/em>, h\u00e1 imagens de pol\u00edticos com bicheiros, e\u00a0h\u00e1 caso de bicheiro que j\u00e1 foi militar.<\/p>\n<p><strong>Rodrigo Reduzino:<\/strong>\u00a0Isso \u00e9 fato. Mas quando se fala em bicheiro, em contraven\u00e7\u00e3o, se responsabiliza a escola de samba, como se a escola de samba tivesse inventado os bicheiros. Esses bicheiros est\u00e3o dialogando com o poder p\u00fablico e circulam no espa\u00e7o do poder p\u00fablico.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong> Voltando na conversa, voc\u00ea disse que o samba \u00e9 uma express\u00e3o de cultura negra. Durante a ditadura anterior a dos militares, a do Estado Novo (1937-1945), se constr\u00f3i a ideia de que o samba \u00e9 cultura brasileira, e essa formula\u00e7\u00e3o j\u00e1 foi defendida como \u201cuma evid\u00eancia da nossa democracia racial\u201d.<\/p>\n<p><strong>Rodrigo Reduzino:<\/strong> O ide\u00e1rio do Brasil como uma democracia racial, forjado intelectualmente por uma parte da elite brasileira, \u00e9 um dos pilares da estrutura racista. E n\u00e3o h\u00e1 nada mais violento do que negar a pr\u00f3pria realidade. 80% dos\u00a0jovens mortos a bala s\u00e3o negros. A maioria das mulheres que sofrem com viol\u00eancia obst\u00e9trica em hospitais p\u00fablicos s\u00e3o negras. Quando se refor\u00e7a o mito da democracia racial, est\u00e1 sendo dito que essas contradi\u00e7\u00f5es da realidade n\u00e3o importam. Mant\u00e9m como est\u00e1, finge que est\u00e1 tudo bem, e a gente permanece nesse para\u00edso que inventaram a custo da exist\u00eancia do outro.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<div class=\"dnd-widget-wrapper context-cheio_8colunas type-image\">\n<h6 class=\"meta\">Para\u00edso do Tuiuti desfila no terceiro dia de carnaval do grupo Especial na Marqu\u00eas de Sapuca\u00ed, na regi\u00e3o central do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva\/Ag\u00eancia Brasil\u00a0<\/h6>\n<\/div>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil:<\/strong>\u00a0Mas o mito da democracia racial tamb\u00e9m \u00e9 cantado em samba.<\/p>\n<p><strong>Rodrigo Reduzino:<\/strong> Cantada em samba, em elegia, a esse grande Brasil. Mas se a gente olhar para dentro dos arquivos do Dops [Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social] foram fichadas pessoas que discutiam rela\u00e7\u00f5es raciais, como aconteceu com [a fil\u00f3sofa e antrop\u00f3loga negra] L\u00e9lia Gonz\u00e1lez [1935 a 1964] e com [o soci\u00f3logo e jornalista negro] Cl\u00f3vis Moura [1925 a 2003], assim como quem era do movimento cultural de express\u00e3o de cultura negra, como as escolas de samba, porque criticam a ideia de democracia racial.<\/p>\n<p><strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>: H\u00e1 a cr\u00edtica de que muitos enredos de desfiles de carnaval do passado foram baseados na historiografia oficial, e que assim as escolas de samba teriam contribu\u00eddo para uma certa aliena\u00e7\u00e3o do processo hist\u00f3rico.<\/p>\n<p><strong>Rodrigo Reduzino:<\/strong> Uma das formas de tornar menor o que voc\u00ea produz \u00e9 te rotular, estigmatizar, classificar, categorizar e te p\u00f4r \u00e0 margem. Quando falamos em hist\u00f3ria oficial ou historiografia oficial, essa est\u00e1 sendo contada por uma elite acad\u00eamica. N\u00e3o surge do nada. N\u00f3s estamos falando de uma mem\u00f3ria oficial. Ela \u00e9 forjada, ela \u00e9 incorporada pelo Estado brasileiro.<\/p>\n<p>Tem sujeito produzindo isso [historiografia oficial], tem muito investimento para produzir isso. Mas s\u00f3 vai parecer que \u00e9 aliena\u00e7\u00e3o na escola de samba? Na academia n\u00e3o \u00e9 aliena\u00e7\u00e3o? As institui\u00e7\u00f5es que forjaram e elaboraram essa oficialidade n\u00e3o s\u00e3o questionadas de aliena\u00e7\u00e3o. E, para a escola de samba, sobra um corte que \u00e9 bem mais pesado, que \u00e9 atrelar esse processo de aliena\u00e7\u00e3o com\u00a0um processo de apoio \u00e0 ditadura.<\/p>\n<blockquote wp_automatic_readability=\"10\">\n<p>Mas se considerarmos a d\u00e9cada de 1970, e olharmos todos os enredos, mapeamos quatro enredos em um total de 140 que v\u00e3o fazer elegia ou ser ufanista com o dito grande Brasil do per\u00edodo da ditadura militar. \u00a0Esses quatro enredos est\u00e3o circunscritos a tr\u00eas escolas. Da onde sai essa ideia de escola de samba adesista \u00e0 ditadura? \u00c9 uma forma de estigmatizar.<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por MRNews O avan\u00e7o da democracia no Brasil ao longo do S\u00e9culo 20 foi sinuoso e n\u00e3o se deu como a evolu\u00e7\u00e3o firme de um desfile bem ensaiado de carnaval. 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