{"id":8448,"date":"2023-02-21T15:35:31","date_gmt":"2023-02-21T18:35:31","guid":{"rendered":"https:\/\/novasdodia.com.br\/?p=8448"},"modified":"2023-02-21T15:35:31","modified_gmt":"2023-02-21T18:35:31","slug":"funk-faz-sucesso-no-exterior-mas-continua-a-ser-atacado-no-brasil-poa-show","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/novasdodia.com.br\/index.php\/2023\/02\/21\/funk-faz-sucesso-no-exterior-mas-continua-a-ser-atacado-no-brasil-poa-show\/","title":{"rendered":"Funk faz sucesso no exterior, mas continua a ser atacado no Brasil &#8211; POA SHOW"},"content":{"rendered":"<p>                Danilo Cymrot, autor de &#8216;O Funk na Batida&#8217;, avalia que a popularidade de artistas como Anitta n\u00e3o impede que o ritmo ainda seja associado \u00e0 criminalidade e alvo de repress\u00e3o policial e projetos de lei para reprimi-lo.             <\/p>\n<p>Para o pesquisador Danilo Cymrot, embora o  fa\u00e7a um estrondoso sucesso no Brasil e no exterior, o g\u00eanero musical continua enfrentando um processo de ataques e persegui\u00e7\u00e3o inclusive da lei. Para ele, a ascens\u00e3o de funkeiros como , hoje a artista brasileira mais conhecida fora do pa\u00eds, n\u00e3o impedem que o estilo sofra com criminaliza\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o policial.<\/p>\n<p>&#8220;Acho que existe uma s\u00edndrome de vira-lata tamb\u00e9m, que n\u00e3o valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o&#8221;, disse em entrevista \u00e0 BBC News Brasil.<\/p>\n<\/p>\n<p>Danilo Cymrot \u00e9 mestre e doutor em Direito Penal e Criminologia pela Faculdade de Direito da USP. Desde 2013 ele \u00e9 pesquisador do Centro de Pesquisa e Forma\u00e7\u00e3o do Sesc S\u00e3o Paulo. No m\u00eas passado, Cymrot lan\u00e7ou o livro O Funk na Batida (Edi\u00e7\u00f5es Sesc), sobre a hist\u00f3ria da criminaliza\u00e7\u00e3o do funk por meio de projetos de lei que tentam disciplinar, proibir e censurar o g\u00eanero.<\/p>\n<p>A obra mostra como o ritmo, desenvolvido nas periferias do Rio de Janeiro e de S\u00e3o Paulo, passou a ser associado \u00e0 criminalidade e \u00e0 viol\u00eancia, sofrendo persegui\u00e7\u00e3o da m\u00eddia e de parlamentares &#8211; tanto de direita como de esquerda.<\/p>\n<p>Na entrevista, o autor falou sobre o hist\u00f3rico de estigmatiza\u00e7\u00e3o do funk nos anos 1990, o papel de parlamentares na cria\u00e7\u00e3o de leis que dificultaram a realiza\u00e7\u00e3o dos bailes e o chamado funk proibid\u00e3o, que aposta em letras sobre a viol\u00eancia na periferia e fac\u00e7\u00f5es criminosas.<\/p>\n<p>Por outro lado, Cymrot tamb\u00e9m comentou como os rolezinhos (encontro de jovens funkeiros em shoppings centers de S\u00e3o Paulo) desagradaram parte da periferia e de ambos os espectros pol\u00edticos, sendo classificado tanto como &#8220;vendido ao capitalismo&#8221; como &#8220;f\u00fatil&#8221; por causa do perfil de baixa renda de seus participantes.<\/p>\n<p>Confira a entrevista abaixo.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Hoje o funk \u00e9 o ritmo brasileiro de mais sucesso fora do pa\u00eds, ao mesmo tempo que ainda se diz perseguido por aqui. Por que essa contradi\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Danilo Cymrot &#8211; <\/strong>Mesmo com sucesso no exterior, ele continua atacado e desvalorizado no Brasil. Claro que um cantor de proibid\u00e3o n\u00e3o vai fazer o mesmo sucesso da Anitta. Os funkeiros sabem que precisam moldar o discurso para atingir determinados p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Veja o caso da  Deu Onda, do MC G15, que surgiu como um funk com linguagem expl\u00edcita. Quando ela come\u00e7ou a fazer sucesso, ele mudou a letra para uma vers\u00e3o mais suave. Baile de Favela tocou na Olimp\u00edada de T\u00f3quio na apresenta\u00e7\u00e3o da ginasta Rebecca Andrade, mas tamb\u00e9m foi uma m\u00fasica que teve sua vers\u00e3o original &#8220;adaptada&#8221; para atingir outros p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Acho que existe uma s\u00edndrome de vira-lata tamb\u00e9m, que n\u00e3o valoriza nossa produ\u00e7\u00e3o. Alguns artistas, mesmo quando s\u00e3o valorizados no exterior, s\u00e3o atacados aqui. O sucesso n\u00e3o traz necessariamente o reconhecimento. Eles s\u00e3o acusados de terem tra\u00eddo suas origens, como a Carmem Miranda, ou porque &#8220;est\u00e3o manchando&#8221; a imagem do Brasil ao refor\u00e7ar o &#8220;apelo sexual e vulgar dos brasileiros&#8221;, como a Anitta e outros artistas.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Por que voc\u00ea aponta um &#8220;arrast\u00e3o&#8221; de 1992 como o in\u00edcio da criminaliza\u00e7\u00e3o do funk?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cymrot &#8211;<\/strong> O primeiro baile funk, o Baile da Pesada, acontecia no Canec\u00e3o, no Rio de Janeiro, antes da casa virar o &#8220;templo da MPB&#8221;. Os bailes sa\u00edram de l\u00e1 e passaram a acontecer em favelas e na periferia do Rio. Nos anos 1980, a elite intelectual na Zona Sul do Rio n\u00e3o sabia o que era funk. O primeiro contato foi nesse epis\u00f3dio conhecido como &#8220;arrast\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Na verdade, o que aconteceu foi um encontro de duas galeras (grupo de jovens da periferia que se reuniam nos bailes). Elas sa\u00edram da Parada de Lucas e foram para a praia de Ipanema, que, embora fosse um ambiente democr\u00e1tico, era privatizada por hot\u00e9is e restaurantes voltados \u00e0s classes altas.<\/p>\n<p>Os jovens come\u00e7aram a brigar em uma esp\u00e9cie de capoeira que misturava briga, brincadeira e dan\u00e7a. Algo parecido com o que acontece em um show de punk. Quem n\u00e3o estava familiarizado com a cena ficou muito assustado. Essa imagem de jovens negros correndo foi interpretada como um arrast\u00e3o, porque j\u00e1 havia todo uma imagem constru\u00edda do jovem negro perif\u00e9rico como um potencial assaltante.<\/p>\n<p>Os participantes foram identificados pela imprensa como funkeiros, nome que virou quase um sin\u00f4nimo de arruaceiro, marginal e ladr\u00e3o. V\u00e1rios pesquisadores, como o antrop\u00f3logo Hermano Vianna, consideram esse epis\u00f3dio como o in\u00edcio da criminaliza\u00e7\u00e3o do funk.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Al\u00e9m de um g\u00eanero musical, o funk tamb\u00e9m costuma ocupar o espa\u00e7o p\u00fablico, e isso gera rea\u00e7\u00f5es. Como essa caracter\u00edstica influenciou a criminaliza\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cymrot &#8211;<\/strong> Historicamente, a reuni\u00e3o de jovens negros sempre causou desconfian\u00e7a e medo na elite brasileira. No s\u00e9culo 19, havia regulamentos que proibiam a circula\u00e7\u00e3o de ajuntamentos de negros escravizados ou at\u00e9 libertos. Existia a suspeita de que as aglomera\u00e7\u00f5es poderiam ensejar revoltas. A capoeira foi criminalizada por isso.<\/p>\n<p>Na Rep\u00fablica Velha, negros circulando pela cidade eram acusados de vadiagem. O  n\u00e3o foi proibido, mas sambistas foram presos e acusados desse delito. Ent\u00e3o, a criminaliza\u00e7\u00e3o se repete com manifesta\u00e7\u00f5es culturais da popula\u00e7\u00e3o negra e perif\u00e9rica, n\u00e3o \u00e9 uma novidade no Brasil.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Os chamados rolezinhos, quando jovens da periferia se juntavam em shoppings centers de S\u00e3o Paulo no in\u00edcio de 2014, tamb\u00e9m se enquadram nesse contexto?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cymrot &#8211;<\/strong> Naquele momento, o shopping center tinha uma simbologia especial, porque o Brasil vivia um bom momento econ\u00f4mico, o \u00e1pice da era do consumo. Parte da popula\u00e7\u00e3o ascendeu socialmente por meio do consumo. Isso se refletiu no funk ostenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo n\u00e3o tem praia e os jovens se organizaram pelas redes sociais para se encontrar nesses locais. \u00c9 importante dizer que eles j\u00e1 frequentavam esses lugares, era parte do cotidiano deles. E n\u00e3o eram shoppings da elite, mas na periferia mesmo, como Itaquera e Aricanduva.<\/p>\n<p>E n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 pessoas brancas e ricas t\u00eam hostilidade ao funk, mas tamb\u00e9m gente das pr\u00f3prias periferias, que convive com o barulho, com os bailes nas ruas, com letras consideradas imorais pela religi\u00e3o evang\u00e9lica que \u00e9 muito presente na periferia. Como eles faziam barulho, cantavam e se divertiam em grupo, essa aglomera\u00e7\u00e3o foi reprimida por seguran\u00e7as e pela pol\u00edcia.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Os rolezinhos podem ser considerados um movimento de protesto?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cymrot &#8211;<\/strong> Alguns pesquisadores tentaram relacion\u00e1-los \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es de junho de 2013. Elas foram organizadas pelas redes sociais por jovens que tinham demandas sobre mobilidade e direito \u00e0 cidade, mas tamb\u00e9m havia diferen\u00e7as. Embora n\u00e3o tivessem um discurso pol\u00edtico expl\u00edcito, os rolezinhos expressavam o direito de circular pela cidade, contra o ass\u00e9dio policial e contra o racismo.<\/p>\n<p>Outro ponto \u00e9 que eles mostravam a necessidade de serem integrados por meio do consumo e, curiosamente, foram criticados por isso. Os rolezeiros foram criticados pela esquerda, que os chamavam de alienados e de se venderem ao capitalismo. E \u00e0 direita, por ostentarem marcas e desejos de um luxo que n\u00e3o s\u00e3o associados a essa classe social.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Os chamados pancad\u00f5es tamb\u00e9m costumam incomodar muito parte da popula\u00e7\u00e3o da periferia, por causa do barulho. Como esse conflito gera repress\u00e3o e leis que tentam disciplinar o funk?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cymrot &#8211;<\/strong> Com a crise econ\u00f4mica a partir de 2015, os jovens que j\u00e1 n\u00e3o tinham muito dinheiro para frequentar baladas e shows de funk fechados passaram a fazer os bailes no meio da rua, colocando uma caixa de som com volume alto. \u00c9 um lazer barato. Drogas e bebidas tamb\u00e9m s\u00e3o consumidas ao ar livre.<\/p>\n<p>Esses bailes ent\u00e3o passam a ser reprimidos pela pol\u00edcia, tamb\u00e9m porque s\u00e3o frequentados pelo p\u00fablico historicamente marginalizado. Essas mesmas drogas s\u00e3o usadas em baladas fechadas da classe m\u00e9dia, mas essas n\u00e3o passam por repress\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que os pancad\u00f5es causam uma  de transtornos, como polui\u00e7\u00e3o sonora e interrup\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fego. A quest\u00e3o \u00e9 se a repress\u00e3o policial aconteceria da mesma forma se fosse outra manifesta\u00e7\u00e3o cultural em outras regi\u00f5es.<\/p>\n<p>Essa repress\u00e3o gerou, por exemplo, 9 mortes em uma opera\u00e7\u00e3o da PM em . Mas o funk n\u00e3o \u00e9 homog\u00eaneo. Muitos reconhecem que as pessoas da periferia t\u00eam direito ao sossego e n\u00e3o querem um baile funk na sua porta quatro dias por semana. Outros n\u00e3o querem o di\u00e1logo com o poder p\u00fablico porque h\u00e1 uma resist\u00eancia e desconfian\u00e7a em se submeter \u00e0s regras.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Seu trabalho mostra que projetos de lei que tentam disciplinar o funk e os pancad\u00f5es foram produzidos por parlamentares de esquerda e de direita.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cymrot &#8211;<\/strong> Tentei n\u00e3o ser manique\u00edsta dizendo que o funk foi criminalizado pelo estado policial e pela burguesia de direita. \u00c9 mais complexo. De fato, os projetos desfavor\u00e1veis ao funk em maioria v\u00eam da direita, de parlamentares ligados \u00e0 pol\u00edcia. Mas a esquerda tamb\u00e9m participou.<\/p>\n<p>Pol\u00edticos de direita criaram projetos de lei que pediam uma s\u00e9rie de exig\u00eancias que praticamente tornava imposs\u00edvel a realiza\u00e7\u00e3o dos bailes. Diziam: &#8220;O problema n\u00e3o \u00e9 o funk, mas o barulho&#8221;. Ao mesmo tempo, esses parlamentares tamb\u00e9m aprovaram leis que reconheciam o funk como manifesta\u00e7\u00e3o cultural e reservavam espa\u00e7os para a realiza\u00e7\u00e3o dos bailes, como o samb\u00f3dromo do Anhembi e o aut\u00f3dromo de Interlagos. \u00c9 aquela coisa: &#8220;N\u00e3o tenho nada contra o funk desde que ele n\u00e3o aconte\u00e7a na minha porta&#8221;.<\/p>\n<p>J\u00e1 no Rio \u00e9 uma salada mais complexa, porque o funk est\u00e1 t\u00e3o enraizado que se inseriu em v\u00e1rias inst\u00e2ncias da sociedade e dos partidos. A vereadora Ver\u00f4nica Costa (PL), por exemplo, \u00e9 uma das parlamentares que mais t\u00eam projetos a favor do funk. E ela fez sua carreira pol\u00edtica em v\u00e1rios partidos de direita.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Mas como a esquerda tamb\u00e9m perseguiu o funk?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cymrot &#8211;<\/strong> Primeiro, o funk sempre foi visto com certa antipatia por ser um &#8220;g\u00eanero alienado&#8221;, principalmente em rela\u00e7\u00e3o ao rap, que era mais politizado e respeitado artisticamente. \u00c9 claro que isso n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade, porque sempre houve &#8220;funks conscientes&#8221; e com cr\u00edtica social.<\/p>\n<p>Segundo: muitos intelectuais de esquerda enxergam como manifesta\u00e7\u00f5es populares ricas aquelas mais folcl\u00f3ricas, ou mesmo o rap, por conta de suas letras engajadas. O funk \u00e9 visto como uma m\u00fasica pobre em termos de qualidade, descart\u00e1vel, um g\u00eanero imposto goela abaixo pela ind\u00fastria cultural. Eu me pergunto se \u00e9 uma &#8216;m\u00fasica pobre&#8217; ou uma &#8216;m\u00fasica de pobre&#8217;.<\/p>\n<p>Mas essa ideia de imposi\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 verdadeira: o sucesso de um funk sempre come\u00e7a nos bailes de rua, e s\u00f3 depois a ind\u00fastria corre atr\u00e1s para tentar tirar uma lasquinha.<\/p>\n<p>O terceiro elemento que gera muita cr\u00edtica da esquerda \u00e9 a acusa\u00e7\u00e3o de que o funk tem letras machistas e homof\u00f3bicas. Isso \u00e9 verdade, mas tamb\u00e9m h\u00e1 muitos sambas, raps, forr\u00f3s e sertanejos que tamb\u00e9m s\u00e3o machistas e homof\u00f3bicos. Os funkeiros s\u00e3o seres em uma sociedade que \u00e9 assim, e isso acaba se refletindo em algumas letras. N\u00e3o d\u00e1 para generalizar e tratar isso como um problema s\u00f3 do funk.<\/p>\n<p>O que a gente v\u00ea s\u00e3o muitas cantoras que questionam e respondem a esse machismo nas letras. Mas essas funkeiras s\u00e3o vistas com desconfian\u00e7a por parte do  mais ortodoxo porque elas refor\u00e7ariam a objetifica\u00e7\u00e3o do corpo da mulher, tendo em vista que muitas letras humilham os homens usando argumentos sexistas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o cen\u00e1rio \u00e9 que o feminismo est\u00e1 rachado em rela\u00e7\u00e3o ao funk, a esquerda tamb\u00e9m est\u00e1 rachada, e direita, idem. O funk gera todos esses conflitos.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Como avalia o fen\u00f4meno do funk proibid\u00e3o, que aposta em letras sobre crimes e fac\u00e7\u00f5es criminosas?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cymrot &#8211;<\/strong> Muita gente tem dificuldade de separar o autor do eu l\u00edrico. N\u00e3o \u00e9 porque uma pessoa est\u00e1 cantando uma coisa que ela viveu aquilo de fato, que aquelas hist\u00f3rias narradas aconteceram exatamente daquele jeito. Em v\u00e1rias culturas existe essa pr\u00e1tica de contar vantagens nas m\u00fasicas. Isso vale tanto pro funk proibid\u00e3o quanto o chamado funk de putaria, com letras pornogr\u00e1ficas.<\/p>\n<p>Em muitas culturas, h\u00e1 essa valoriza\u00e7\u00e3o da figura do criminoso. Quando o Chico Buarque faz uma m\u00fasica sobre um traficante ningu\u00e9m questiona se ele tem liga\u00e7\u00e3o com alguma fac\u00e7\u00e3o. Mas se for um jovem negro, morador de favela, ele \u00e9 sempre visto como algu\u00e9m suspeito de ter envolvimento com o crime, vai ser chamado a prestar esclarecimento na pol\u00edcia.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que v\u00e1rios MCs j\u00e1 disseram que s\u00f3 fizeram funk proibid\u00e3o por uma quest\u00e3o mercadol\u00f3gica, de vendas mesmo. Essas m\u00fasicas contam uma realidade, ou s\u00e3o uma forma de exorcizar esse terror pelo qual esses artistas passam desde crian\u00e7a. \u00c9 uma mem\u00f3ria subterr\u00e2nea da hist\u00f3ria do Brasil. E essa \u00e9 uma realidade violenta com a qual a sociedade n\u00e3o quer conviver. Prefere matar o carteiro em vez de lidar com a mensagem.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Isso n\u00e3o acaba glamourizando uma vida que n\u00e3o \u00e9 boa para os pr\u00f3prios jovens?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cymrot &#8211;<\/strong> Sim, muitos cantam o funk de fac\u00e7\u00e3o n\u00e3o porque t\u00eam envolvimento com o crime, mas porque de certa forma a vida de um traficante \u00e9 glamourizada como a de um sujeito que tem poder, dinheiro, contatos&#8230; Por outro lado, em comunidades que sofrem muito com a viol\u00eancia e corrup\u00e7\u00e3o policiais, cantar sobre as fac\u00e7\u00f5es \u00e9 uma esp\u00e9cie de revide simb\u00f3lico. \u00c9 como se o funkeiro dissesse \u00e0 pol\u00edcia: &#8220;Voc\u00ea pode me humilhar todos os dias, mas eu te respondo com uma batida e um funk&#8221;.<\/p>\n<p>Muitos funkeiros se incomodam quando um proibid\u00e3o fica famoso, pois eles dizem que as m\u00fasicas s\u00e3o feitas da comunidade para a comunidade, ou seja, o objetivo \u00e9 que ele fique ali.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Poderia falar um pouco sobre o pornogr\u00e1fico?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cymrot &#8211; <\/strong>Existe uma tradi\u00e7\u00e3o da m\u00fasica brasileira em falar sobre sexo, mas normalmente usando o duplo sentido. Na hist\u00f3ria, houve outras manifesta\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o negra perseguidas por conte\u00fado tipo por sexual, como o lundu. O funk falar sobre isso de maneira t\u00e3o expl\u00edcita \u00e9 quase uma novidade. Curiosamente, muitos MCs dizem que come\u00e7aram a cantar esse estilo porque foram reprimidos quando cantavam o proibid\u00e3o.<\/p>\n<p>O auge do funk com apelo sexual no Rio de Janeiro, nos anos 2000, surgiu como uma resposta aos bailes de corredor, que sempre terminavam em brigas entre o p\u00fablico. Tamb\u00e9m surgiu com grande participa\u00e7\u00e3o de mulheres, que dan\u00e7avam e subiam ao palco para cantar sobre o que gostavam de fazer, que tamb\u00e9m tinham direito de gozar etc.<\/p>\n<p>Esse movimento foi at\u00e9 chamado de &#8220;neofeminista&#8221;. Muitas funkeiras reclamaram disso publicamente, dizendo que s\u00f3 conseguiam espa\u00e7o se cantassem esse estilo. E muitas n\u00e3o tinham nada a ver com esse universo, eram mais conservadoras e at\u00e9 evang\u00e9licas.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 tamb\u00e9m um papel pol\u00edtico de questionar os bons costumes. Ent\u00e3o, quando fala sobre sexo de maneira expl\u00edcita, o funk choca setores mais conservadores da sociedade.<\/p>\n<p><strong>BBC News Brasil &#8211; Nos anos 1990, no Rio, repercutiu muito o fato de jovens brancos de classe m\u00e9dia passaram a subir os morros para ir aos bailes. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Cymrot &#8211;<\/strong> \u00c9 aquela coisa: &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o gosta de mim, mas sua filha gosta&#8221;. Houve uma grande influ\u00eancia da m\u00eddia. Enquanto o mesmo canal mostrava no jornal o funk como uma cultura violenta, um programa vespertino, como o da Xuxa, convidava MCs para cantar e mostrar um &#8220;funk da paz&#8221;, como a dupla Claudinho e Buchecha.<\/p>\n<p>Os jovens da Zona Sul carioca se deixam contagiar pela batida e resolvem subir o morro. Isso gera um p\u00e2nico nos pais. Eles achavam que o funk estava levando seus filhos para o mau caminho, para lugares perigosos.<\/p>\n<p>Este texto foi publicado originalmente em <\/p>\n<p>Sabia que a BBC est\u00e1 tamb\u00e9m no Telegram? <strong>.<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/p>\n<p>J\u00e1 assistiu aos nossos novos v\u00eddeos no <strong>? 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Para o pesquisador Danilo Cymrot, embora o fa\u00e7a um estrondoso sucesso no Brasil e no exterior, o g\u00eanero [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-8448","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/novasdodia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8448","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/novasdodia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/novasdodia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/novasdodia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/novasdodia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8448"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/novasdodia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8448\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/novasdodia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8448"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/novasdodia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8448"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/novasdodia.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8448"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}